Sem transmissão comunitária, Fernando de Noronha vive ‘novo normal’ antes do continente

Primeira etapa da reabertura de Noronha para o turismo aconteceu em 1º de setembro. (Foto: Divulgação)

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Um oceano e 545 quilômetros separam realidades distintas. No continente, casos do novo coronavírus continuam a ser registrados e o retorno às aulas presenciais ainda é uma promessa. Em Fernando de Noronha, não há transmissão comunitária da Covid-19 desde maio e os alunos já voltaram à escola. Mais do que nunca, o arquipélago pernambucano é o paraíso desejado por qualquer brasileiro. Exceto pelo uso de máscara em alguns ambientes e pelo respeito às normas de distanciamento social e higienização constante das mãos, o clima em Noronha é de "vida normal" para muitos noronhenses. Agora, só falta o presença de mais turistas para moradores e trabalhadores da ilha terem a rotina mais próxima daquela vivida antes da pandemia. "O período difícil está passando. Não queremos olhar pelo retrovisor, mas para frente. A expectativa, com a retomada do turismo, é grande e estamos prontos para receber os visitantes", disse a presidente do Conselho de Turismo de Noronha, Auxiliadora Costa. Após a retomada gradual do turismo na ilha, desde 1º de setembro, para os turistas que já tiveram a Covid-19, Noronha entra, no próximo dia 10, em uma nova etapa de reabertura, liberando a entrada para todos os visitantes. A medida foi anunciada nessa quarta-feira (23) pelo administrador da ilha, Guilherme Rocha, durante uma coletiva do governo do estado. O acesso dos turistas seguirá um novo protocolo, elaborado pela administração do distrito pernambucano e pelas autoridades de saúde do estado. A principal regra do documento é a obrigatoriedade da realização do teste RT-PCR para detecção do novo coronavírus no dia anterior ao embarque ou na data da viagem. "De forma gradual e com responsabilidade, vamos retomando as atividades econômicas da ilha mas, principalmente, colocando a vida das pessoas em primeiro lugar", afirmou Rocha. No desembarque em Noronha, serão seguidas regras que já em vigor para todos que chegam à ilha. Será feita a medição de temperatura e não será permitida a entrada de pessoas com sintomas de febre. Também é necessário obedecer ao distanciamento social de 1,5 metro na área do aeroporto. O uso de máscara em locais públicos é obrigatório, sob pena de multa. Durante o período de estadia, o turista terá que usar o aplicativo Dycovid – Dynamic Contact Tracing. O app notifica o usuário da ocorrência de um contato de alto risco, rastreando a doença. Quando alguma pessoa, também usuária, sinaliza que está contaminada, todos aqueles contatos que estiveram próximos são avisados que, em algum momento, podem ter sido expostos ao vírus. As informações na ferramenta são anônimas. Os visitantes também deverão assinar o Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta concordando com o cumprimento do protocolo e das orientações da Vigilância Sanitária do arquipélago. Na saída da ilha, será necessário realizar um novo RT-PCR para que haja um controle da Vigilância em Saúde sobre uma possível contaminação comunitária. O teste não impede a viagem de retorno. Turismo ainda não está aquecido Enquanto do ponto de vista da saúde, Fernando de Noronha foi um dos lugares mais privilegiados do Brasil, a vida econômica do arquipélago sofreu um forte golpe. Totalmente dependente do turismo, a economia da ilha minguou. "Não foi fácil atravessar esse período. Mesmo sendo tendo uma pousada (domiciliar), precisei do auxílio da administração para continuar me alimentando e para comprar meu gás", disse uma noronhense que não quis se identificar. Noronha foi o primeiro local do Brasil a passar por uma quarentena rígida. A ilha ficou isolada pela pandemia e seus cerca de 3 mil habitantes foram colocados em isolamento em abril. Desde meados de maio, o local já não registra casos do novo coronavírus. Foram registrados 119 casos da Covid-19 no arquipélago. Nenhuma morte ocorreu no distrito estadual. Do total de casos, 70 pacientes estavam na ilha e tiveram cura clínica. Os outros 49 foram classificados como "casos importados", ou seja, que têm registro relacionado a Fernando de Noronha, mas não estavam na ilha. "O restante do país estava vivendo os momentos mais críticos relacionados à doença quando Noronha já havia controlado a transmissão. Por outro lado, do ponto de vista econômico, sofremos mais do que em outros lugares", observou o empresário Antonio Gomes, 56 anos. Proprietário de uma operadora de receptivo e de uma empresa de mergulho, Antonio revela que foi difícil manter o funcionamento delas sem faturamento, mas com todos os custos fixos. "A flexibilização de setembro não trouxe o retorno que precisávamos, mas estamos mais confiantes em relação a essa nova abertura (de outubro)", contou o empresário que nasceu no interior de São Paulo, morador de Noronha há 27 anos. No primeiro voo após a liberação do turismo, apenas quatro pessoas desembarcaram. No fim de semana seguinte, foram 25 turistas de sete estados brasileiros. "Com o anúncio da reabertura para todos os turistas, o impacto nas vendas foi imediato e já temos perspectiva de números melhores em outubro", pontuou a presidente do Conselho de Turismo de Noronha, Auxiliadora Costa. Volta às aulas acontece com tranquilidade


Kelly Soares, 18 anos, disse que se sentiu segura na escola. (Foto: Arquivo Pessoal)
Kelly Soares, 18 anos, disse que se sentiu segura na escola. (Foto: Arquivo Pessoal)

Primeira localidade de Pernambuco a retomar as aulas presenciais, Fernando de Noronha registrou uma primeira semana de atividades na Escola de Referência em Ensino Fundamental e Médio Arquipélago. Na chegada, os alunos aguardam a entrada em marcações indicadas no chão. Quando entram, têm a temperatura medida, recebem orientações sobre o protocolo e são direcionados ao totem de álcool gel para fazer a higienização das mãos. Na sala, devem respeitar o distanciamento adequado entre as bancas. De acordo com o Censo Escolar 2019, do Ministério da Educação (MEC), a escola de Fernando de Noronha tem 408 estudantes. Uma delas, Kelly Soares, 18 anos, disse que se sentiu segura na aula. "Os protocolos realmente estão sendo respeitados. A parte difícil tem sido usar a máscara durante todo o tempo. Não estava acostumada porque não temos usado tanto nas ruas, mas na escola é obrigatório", disse. Além da mudança relacionada ao uso do equipamento de proteção individual, o horário de aulas também foi modificado. Antes pandemia, Kelly estudava das 13h às 20h20. Agora, vai à escola das 17h50 às 22h. "Tirando essas alterações, tenho mantido minha rotina de estudo", afirmou. Kelly está no terceiro ano do ensino médio e se preparando para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em janeiro do próximo ano. A noronhense pretende cursar engenharia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e, se for aprovada, precisará se mudar para a capital pernambucana. "Tentei manter os estudos mesmo durante a suspensão das aulas. A maior dificuldade na ilha é acessar conteúdos virtuais porque a conexão à internet é ruim. Gosto de estudar por livros e tenho bons exemplares em casa. Essa acabou sendo uma vantagem", contou. A retomada das aulas presenciais em Noronha acontece de forma gradual. No último dia 22, foram reiniciadas as atividades para os estudantes do ensino médio. Nesta segunda-feira (28), os alunos dos anos finais do ensino fundamental volta às aulas. Para os anos iniciais do fundamental, o retorno será no dia 5 de outubro. Já as atividades no Centro Integrado de Educação Infantil (CIEI) Bem-Me-Quer, para a educação infantil, voltam nos dias 13 de outubro para o jardim 3 (grupo 5) e no dia 19 de outubro para o jardim 1 (grupo 3) e jardim 2 (grupo 4). Ainda não há previsão para receber as crianças do berçário (grupo 1) e do maternal (grupo 2). No restante do estado, o retorno das aulas presenciais em escolas da educação básica do estado está marcado para o dia 6 de outubro tanto para unidades da rede pública quanto para as particulares em todas as regiões. Na primeira etapa, a volta às aulas envolve apenas o terceiro ano do ensino médio. Ainda não há datas para a retomada do ensino fundamental e da educação infantil. A volta será opcional e caberá aos pais ou a estudantes com 18 anos ou mais decidir sobre frequentar ou não as atividades presenciais. O modelo remoto de ensino deve continuar sendo oferecido a esses alunos. Noronha em números: 106 mil turistas visitaram o arquipélago em 2019, sendo 96 mil brasileiros e 10 mil estrangeiros 103 mil visitantes foram registrados em 2018, ou seja, houve um aumento de 2,49% entre 2018 e o ano passado 3.101 pessoas é a população estimada da ilha em 2020, segundo o IBGE 2.630 habitantes era a população de Noronha registrada no Censo 2010 do IBGE 154,55 hab/km² é a densidade demográfica da ilha 2.059 pessoas (cerca de 70% da população) trabalham na ilha


Por: Anamaria Nascimento

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